Importação como vilã.

Segue, abaixo, matéria veiculada no dia 10.01.2011 no Jornal O Estado de São Paulo, tratando a importação como vilã. Porém, ninguém faz expressa menção dos ganhos ocasionados pelas importações, principalmente de produtos que a indústria nacional não consegue produzir e suprir a demanda interna.

Enfim, acho que tratar a importação como a fonte dos problemas da indústria nacional não é correto, pois, com ela, principalmente, são gerados inúmeros empregos indiretos, em especial no atacado e no varejo.

Abraços e boa semana,

Luciano Bushatsky Andrade de Alencar.

Indústria perde R$ 17,3 bi e deixa de criar 46 mil vagas com importações

Participação da indústria de transformação no PIB caiu de 27% para 16% nos últimos 20 anos; para setor, quadro é de difícil reversão

09 de janeiro de 2011 | 20h 50

Marcelo Rehder, de O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO – Pressionada pelas importações, a indústria brasileira de transformação perdeu R$ 17,3 bilhões de produção e deixou de gerar 46 mil postos de trabalho em apenas nove meses de 2010. A informação é de um estudo inédito da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) que mediu o impacto que o processo de perda relativa do setor na formação do Produto Interno Bruto (PIB) apresenta na economia brasileira.

Em dois anos, o chamado coeficiente de importação, que mede o porcentual da demanda interna suprido por produtos vindos do exterior, subiu quase dois pontos. Passou de 19,6%, no acumulado de janeiro a setembro de 2008 (pré-crise), para 21,2%, no mesmo período de 2010.

Se o setor não tivesse perdido participação para os produtos estrangeiros, as importações do setor cairiam de R$ 232,4 bilhões para R$ 215,1 bilhões, segundo a Fiesp. Ao mesmo tempo, a produção doméstica subiria de R$ 1,055 trilhão para R$ 1,072 trilhão. Esse crescimento da produção, de 1,6%, geraria aumento de 0,58% do emprego industrial.

“O País não pode se dar ao luxo de abrir mão de sua indústria na sua estratégia de desenvolvimento”, afirma o presidente da Fiesp, Paulo Skaf.

No fim dos anos 1980, a indústria de transformação representava 27% do PIB brasileiro. Hoje, baixou para 16%, calcula a Fiesp com base na nova metodologia do Instituto Brasileiro de Geografia Estatísticas (IBGE), adotada a partir de 2007.

“É uma equação difícil de ser resolvida e não tem solução de curto prazo”, diz Paulo Francini, diretor do departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da Fiesp. “Além do problema do cambio valorizado, há a questão do custo Brasil, que acentua a perda de competitividade da nossa indústria.”

Não é de hoje que a indústria vem perdendo espaço. “O País está se desindustrializando desde 1992”, diz o ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser-Pereira.

Para ele, o Brasil perdeu a possibilidade de “neutralizar a tendência estrutural à sobreposição cíclica da taxa de câmbio” quando fez a abertura financeira, no quadro de acordo com o FMI. “Em consequência, a moeda nacional se apreciou, as oportunidades de investimentos lucrativos voltados para a exportação diminuíram, a poupança caiu, o mercado interno foi inundado por bens importados e muitas empresas nacionais deixaram de crescer ou mesmo quebraram.”

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Sobre Luciano Bushatsky Andrade de Alencar

Pernambucano. Advogado Aduaneiro e Tributarista, com foco em tributação em comércio exterior e Direito Aduaneiro de um modo geral, atendendo todos os intervenientes nas atividades de comércio exterior, desde importadores e exportadores, aos operadores portuários. Sócio do escritório Severien Andrade Alencar Advogados. Pós-graduado em Direito Tributário pelo IBET/SP - IPET/PE. Vice-Diretor da Associação Brasileira de Estudos Aduaneiros - ABEAD/Regional Pernambuco. Membro da Comissão de Direito Marítimo, Portuário e do Petróleo da OAB/PE. Mestrando em Direito Tributário pela Escola de Direito da FGV/SP.

2 pensamentos sobre “Importação como vilã.

  1. Concordo Luciano, conter as importações só vai piorar ainda mais a taxa cambial p/ os exportadores. Deve-se fazer o oposto: Não impor restrições ao país importar, assim o saldo financeiro de entrada de dólares diminui, o que suavizaria a pressão de valorização. A saída de dólares contribui diretamente p/ uma NÃO maior valorização do Real. A atual taxa aprecida é reflexo da maior oferta/entrada de US$s.

    Como não dá/faria sentido pedir aos exportadores p/ diminuírem suas exportações (e conter assim a entrada e consequente apreciação do Real), é através (também) da outra ponta que se faz o equilíbrio.

    Além do pagamento das importações, outro vetor financeiro indireto que colaboraria p/ segurar a apreciação do Real seria a redução dos juros internos (que não esta ocorrendo, pelo contrário..). Altas taxas de juros atraem investidores externos a comprarem títulos no país, trazendo mais dólares e ajudando a valorizar o Real.

    Imaginem o que teria acontecido c/ o Real se o Brasil tivesse importado a metade do que efetivamente importou em 2010 (US$ 181 bilhões). Significaria – a rigor – US$ 90 bilhões a menos a sair do país… Qual seria a consequência sobre a taxa de cambio deste volume monumental extra de dólares que ficaria no país ?? Teríamos um superávit comercial maravilhoso (é verdade), mas uma inflação lá nas alturas e uma taxa cambial ao redor de US$ 1 p/ R$ 1, talvez pior. Será que a população e os exportadores iriam gostar??

    Não é de hoje, a importação é parte da solução – e não do problema – p/ o reequilíbrio da nossa moeda. Isto, associado à redução dos juros internos (que só ocorrerá quando a União e os Estados gastarem menos do que arrecadam – e não me refiro apenas a um superávit primário, mas um equilíbrio nominal da dívida pública, sem uso de contabilidades “criativas”) farão a diferença a favor dos exportadores e do país como um todo. Só assim será possível, de forma consistente/sustentado, voltar ao antigo patamar de US$ 1 p/ R$ 2,00/ 2,30.

    O que deve ser coibido sim são as importações subfaturadas, o descaminho, a classificação fiscal fraudulenta e as operações de triangulação de origem p/ escapar das tarifas anti-dumping.

    • Prezado Frederico, concordo plenamente com a sua opinião.

      Inclusive, indico a leitura de um ensaio de Frederic Bastiat – “Free Trade”, no qual ele, em meados de 1800, divaga sobre problemática semelhante e expõe, de forma bem detalhada, a solução que coincide com as suas afirmações.

      Abraços e obrigado pela atenção!

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